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Pesquisa nacional do Instituto RME 2026 aponta que a maioria das empreendedoras são as provedoras do lar, mas sobrecarga de tarefas do cuidado ainda trava o crescimento dos seus negócios

A maioria dos lares no Brasil hoje tem mulheres como principais provedoras, conforme mostram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e, o empreendedorismo feminino no Brasil, já conta com quase 10 milhões de empresas ativas (Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte – DREI/MEMP), atuando como engrenagem fundamental […]

Publicado em 14 de agosto de 2026

A maioria dos lares no Brasil hoje tem mulheres como principais provedoras, conforme mostram dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e, o empreendedorismo feminino no Brasil, já conta com quase 10 milhões de empresas ativas (Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte – DREI/MEMP), atuando como engrenagem fundamental da economia nacional. No entanto, 54,7% delas começaram a empreender por necessidade e 81,1% afirmam enfrentar mais desafios no setor do que os homens.

É o que revelam os dados da pesquisa nacional “Empreendedoras e Seus Negócios 2026”, realizada pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora (IRME) por meio do seu LAB – Laboratório de Gênero e Empreendedorismo, executada pela Tewá 225, patrocinada pelo W20 Brasil, com apoio institucional do Pacto Global da ONU Brasil e FIA Business, além da Rede Mulher Empreendedora. O estudo chega à sua 11ª edição e, além de apresentar o panorama sobre as empresas criadas por mulheres e os principais desafios da jornada empreendedora, investigou questões de saúde mental, sobrecarga do trabalho de cuidado, criação de conteúdo, mostrou como elas votam e ainda revelou situações como as de violência contra a mulher. 

A pesquisa adotou uma metodologia integrada, com pesquisa quantitativa por questionário combinada com fontes secundárias, incluindo análise preliminar de dados oficiais do IBGE, IPEA e DataSenado, além de entrevistas de campo com grupos de empreendedoras. A etapa quantitativa contou com um formulário que obteve 1.176 respostas válidas distribuídas pelas cinco regiões do país, garantindo 95% de grau de confiança e margem de erro máxima de 3,1%. Por fim, a etapa qualitativa promoveu a escuta de 95 mulheres distribuídas em 15 grupos focais, além de cinco entrevistas com especialistas e representantes de organizações parceiras.

O perfil das empreendedoras brasileiras reflete uma realidade de autonomia acompanhada por grandes responsabilidades familiares e sociais. Atualmente, 70% das mulheres que empreendem trabalham por conta própria (sem colaboradores), concentrando-se principalmente no ramo da alimentação e gastronomia (21,3%). Além disso, a maior parte dos empreendimentos (39,8%) é relativamente nova, tendo entre 2 e 5 anos de existência. Esse protagonismo se estende diretamente ao lar: 73,8% delas são mães, sendo quase metade mães solo e 57,3% ocupam o posto de principais provedoras de suas famílias. A diversidade racial também é um traço marcante e consistente, com 52,3% das empreendedoras se declarando negras (pretas e pardas), mantendo-se como maioria em todos os anos da série histórica da pesquisa.

No quesito instrução, o grupo apresenta altos níveis de escolaridade, com 57,9% possuindo ensino superior (taxa bem acima da média nacional) e 36,6% contando com pós-graduação, embora a desigualdade persista e 5,8% não tenham tido acesso à educação básica. Em relação à idade, a faixa etária predominante concentra-se entre 30 e 49 anos, com a parcela de 40 a 49 anos representando 35% das entrevistadas, destacando-se ainda o expressivo salto das mulheres de 70 anos ou mais, que atingiram 5% do total em 2026, um volume cinco vezes maior do que em edições anteriores.

“Ao longo dos 9 anos em que o Instituto Rede Mulher Empreendedora acompanha a evolução do empreendedorismo feminino no Brasil, a trajetória evidencia avanços, ao mesmo tempo em que expõe barreiras estruturais e desafios novos. É preciso entender que quando as mulheres prosperam financeiramente, todos ganham, pois elas tendem a investir na própria família e comunidade ao redor. Os caminhos estão aí: é preciso dar a elas rede de apoio, capacitação e colocar dinheiro na mesa delas para que possam prosperar com maior velocidade”, destaca Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora.

Sobrecarga de cuidado, desigualdade racial e barreiras no digital

O estudo deixa claro que o trabalho de cuidado não remunerado é um dos maiores entraves ao ecossistema. A maternidade é uma realidade para a maioria das empreendedoras e três em cada quatro (75%) afirmam não contar com qualquer apoio informal, seja de parceiros, familiares ou serviços pagos. Como consequência dessa falta de amparo, 80,7% delas já precisaram interromper as atividades de suas empresas para realizar tarefas de cuidado, e 61,7% confirmam que essa sobrecarga trava diretamente o desenvolvimento do negócio.

No recorte racial, embora representem a maioria do setor (52,3%), as mulheres negras enfrentam maior vulnerabilidade: a taxa de informalidade entre elas é 75% superior (42,8% contra 24,5%), o que restringe ainda mais o acesso a crédito bancário, auxílio-doença e aposentadoria. No campo operacional, a gestão de marketing e divulgação desponta como o principal obstáculo para 51,9% das participantes. Apesar de 72,2% utilizarem a internet para promover produtos e serviços, a maioria não se identifica como criadora de conteúdo e relata receio diante de riscos como assédio digital e violência de gênero.

Desafios financeiros, assimetria de gênero e posicionamento político

A questão financeira também marca fortemente a rotina dessas empresas. Quase metade dos negócios (46,6%) fatura até R$ 3.242 por mês (o equivalente a dois salários-mínimos), e apenas 10% das empreendedoras conseguem gerar sobra financeira para poupar ou reinvestir após cobrir as despesas básicas. A informalidade atinge 31,9% do setor, motivada principalmente pelos altos custos envolvidos (38,9%).

Além disso, 81,1% das entrevistadas consideram que mulheres enfrentam mais desafios que homens no empreendedorismo. Com 54,7% tendo começado a empreender por necessidade, elas acabam dedicando seis horas semanais a menos ao próprio negócio do que os homens, resultado direto da jornada doméstica e de cuidado acumulada. Relatos de insegurança e medo da violência de gênero também fazem com que diversas empresárias evitem eventos noturnos e outros espaços que consideram menos seguros.

Por fim, a pesquisa aponta uma acentuada lacuna de representatividade, onde apenas 14% se sentem representadas na política como empreendedoras e 13,6% como mulheres. Apesar disso, o engajamento democrático permanece forte: 56,4% rejeitam o voto nulo ou em branco, e 76,8% consideram essencial que os candidatos apresentem propostas voltadas às causas que priorizam.

Confiança e independência: a virada de chave do empreendedorismo feminino

Mesmo diante dos desafios estruturais, a trajetória das empreendedoras brasileiras é marcada por uma clara virada de chave, onde a resiliência dá lugar à autoconfiança e ao protagonismo. Os sentimentos positivos em relação ao futuro configuram 70,1% das mulheres que se declaram confiantes e 66,7% mostram-se otimistas, contrastando com os índices de ansiedade (30,9%) e cansaço (18,4%). Essa postura reflete um forte sentimento de emancipação, já que 60,1% se consideram financeiramente independentes, uma conquista expressiva, mesmo em cenários onde a renda familiar total ainda é baixa.

Esse movimento de fortalecimento ganha tração com o avanço no acesso a recursos e parcerias estratégicas. O acesso ao crédito, por exemplo, registrou um salto consistente nos últimos anos, subindo de 25% em 2023 para 47,8% em 2026, ampliando a capacidade de investimento dessas empresárias. Além disso, diante de eventuais lacunas do apoio institucional, as redes de mulheres e os grupos de apoio mútuo consolida-se como fontes reais de acolhimento, impulso e fortalecimento coletivo, provando que a união entre pares é uma das ferramentas mais potentes para consolidar a autonomia feminina no mercado.

Soluções e impacto real

Para que o empreendedorismo feminino deixe de ser apenas uma estratégia de sobrevivência e se consolide, definitivamente, como um motor de emancipação econômica e transformação social, a atuação do Instituto RME estrutura-se em cinco frentes prioritárias. No campo do Crédito e Capital, a organização enfrenta o desafio da escassez de financiamento, fornecendo microcrédito facilitado por meio dos projetos liberados pela RME, via FIRME (Fundo de Impacto e Renda para Mulheres). Na Formalização e Gestão, combate o índice de 31,9% de informalidade, movido sobretudo pelos altos custos, oferecendo capacitações gratuitas em finanças e aceleração por meio de projetos e pela plataforma de Cursos RME.

Para superar as barreiras de Acesso a Mercados e as dificuldades logísticas de divulgação, o Instituto promove programas gratuitos, aproximando as empreendedoras de grandes compradores. Além disso, o enfrentamento ao isolamento e à falta de suporte nas tarefas de cuidado dá-se pelo fortalecimento de redes de apoio pela Comunidade RME, integrando também essas mulheres em espaços de acolhimento como o Clube RME, RME Mentorias e a rede de Embaixadoras e eventos regionais. 

Por fim, a busca por Representatividade e maior visibilidade nos espaços de decisão pública consolida-se na produção contínua de pesquisas de impacto social pelo LAB RME, gerando dados cruciais para subsidiar políticas públicas eficientes. “Ao unir capacitação, crédito, mercado, rede e dados, o Instituto RME não apenas responde às urgências do presente, mas constrói caminhos sustentáveis para o futuro do empreendedorismo feminino no Brasil’, ressalta Ana.

Da Redação