Conselheiro: Entre o Hype e a Realidade da Cadeira
Parece que, de repente, o cargo de “Conselheiro” virou o novo troféu do LinkedIn. Basta uma breve navegação pelo feed para encontrar centenas de perfis atualizando seus status para Board Member ou buscando uma certificação rápida para carimbar o currículo. Virou “hype”. Mas, como tudo que vira moda no mundo corporativo, o glamour das fotos […]
Publicado em 27 de fevereiro de 2026
Parece que, de repente, o cargo de “Conselheiro” virou o novo troféu do LinkedIn. Basta uma breve navegação pelo feed para encontrar centenas de perfis atualizando seus status para Board Member ou buscando uma certificação rápida para carimbar o currículo. Virou “hype”. Mas, como tudo que vira moda no mundo corporativo, o glamour das fotos em salas de reunião esconde uma realidade que muitos preferem ignorar: ser conselheiro não é um título somente, é um trabalho de altíssima responsabilidade e risco.
Se você acha que sentar em um Conselho de Administração é apenas dar palpites estratégicos uma vez por mês, você não entendeu o papel da cadeira.
O Risco não é “Figurativo”, é Legal
Precisamos falar sobre o que ninguém conta nos posts de celebração: o risco jurídico. No Brasil, o conselheiro de administração tem responsabilidade fiduciária. Isso significa que, se as decisões do colegiado levarem a empresa a problemas graves — sejam eles financeiros, tributários, trabalhistas ou ambientais —, o patrimônio pessoal desse conselheiro pode ser atingido.
É por isso que, antes de aceitar qualquer convite, você precisa olhar para a governança da empresa e exigir um seguro de D&O (Directors and Officers Liability Insurance). Esse seguro não é um luxo, é uma proteção essencial que cobre custos de defesa e possíveis indenizações, mas importante destacar que dependendo do tamanho do problema nem o seguro de D&O resolve. Aceitar uma cadeira sem o respaldo de uma apólice de D&O robusta é uma imprudência com o seu futuro.
A Jornada Real: Habilidades Além do Currículo Executivo
Chegar a um conselho não é o “prêmio de aposentadoria” para quem foi um bom C- Level . É uma transição de carreira que exige um novo conjunto de habilidades (o famoso upskilling). Uma boa jornada de preparação passa por três pilares fundamentais:
- Visão Holística e Financeira: Você precisa saber ler um balanço e entender os riscos de capital, mesmo que sua origem seja o RH ou o Marketing. O conselheiro cuida da sustentabilidade do negócio.
- Pensamento Sistêmico e Estratégico: Diferente do executivo, que foca no “como fazer” (operação), o conselheiro foca no “para onde vamos” e “quais os riscos no caminho”.
- Habilidades Comportamentais (Soft Skills): Aqui o bicho pega. É preciso ter independência de pensamento para discordar quando todos dizem “sim”, ter diplomacia para construir consensos e uma enorme capacidade de escuta ativa.
- A jornada ideal começa com a participação em comitês de assessoramento (como comitês de auditoria, inovação ou pessoas) ou em conselhos de ONGs. É ali que você treina o olhar de governança antes de assumir a responsabilidade total de um conselho de administração.
O Cuidado com os “Cursos Caça-Níqueis”
Com a explosão da demanda, surgiu uma indústria de cursos que prometem te transformar em conselheiro em um final de semana. Cuidado. Não existem milagres na governança. Busque formações sólidas, instituições que tenham histórico e que realmente preparem você para a complexidade da Governança Corporativa. Ser um bom executivo é uma coisa; ser um bom conselheiro é outra competência completamente diferente.
Networking é essencial
Para ser considerado como possível candidato para os conselhos você precisa de um bom networking , vou repetir , precisa. Não adianta só achar que sua reputação vai abrir caminhos, uma sólida de rede de relacionamentos com outros executivos e conselheiros além de empresas de Executive Search são fundamentais neste processo.
Diversidade: é sobre inovação, sobre estratégia e sobre economia
Diversidade em conselhos não é sobre “estética” ou “gentileza” corporativa. É sobre inteligência estratégica. Conselhos homogêneos sofrem de miopia coletiva.
Precisamos de mulheres, de pessoas negras, de diferentes sotaques e realidades. Mas — e aqui está o ponto crucial — precisamos de pessoas qualificadas e preparadas (e temos muitas). A diversidade entrega valor real quando combinada com a competência técnica.
O meu recado
O mercado precisa de bons conselheiros e conselheiras. O Brasil precisa de conselhos mais diversos e profissionais. Mas que isso venha acompanhado de seriedade. Deixe o hype para os posts de vaidade e traga a dedicação para a mesa. A governança agradece.