Pesquisa da Rede Mulher Empreendedora avança com dados que comparam negócios de mulheres e homens

Maior estudo sobre o empreendedorismo no Brasil chega à quarta edição, agora com recorte de gênero e dados consistentes que fazem dele a referência no mercado

 

Durante a abertura do 8º Fórum Empreendedoras, no dia 19 de setembro, em São Paulo, a Rede Mulher Empreendedora vai apresentar os principais resultados da pesquisa “Empreendedorismo no Brasil 2019: um recorte de gênero nos negócios”. Em sua quarta edição, a pesquisa traz pela primeira vez comparações entre negócios liderados por mulheres e homens destacando as diferenças no perfil e na motivação para empreender, e ainda na gestão financeira e no acesso a crédito.

 

“A cada ano, procuramos avançar nessa pesquisa para entender ainda melhor o cenário e, assim, poder buscar os caminhos de desenvolvimento para cada vez mais mulheres”, diz Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, professora de empreendedorismo e uma das maiores especialistas no tema no país. “Ao fazer esse recorte de gênero, podemos encontrar respostas para questões que impactam na taxa de sucesso de um negócio como, por exemplo, o tempo que a mulher tem disponível para trabalhar nele e o tempo que ela ainda precisa para cumprir as funções em casa e com a família, que continuam sendo de sua responsabilidade”, completa ela.

 

A pesquisa mostra que os empreendedores brasileiros são em sua maioria casados (59% das mulheres; 55% dos homens) e metade têm filhos. Mulheres empreendem mais tarde que homens – enquanto 41% deles começam entre 18 e 29 anos, 37% delas iniciam o negócio entre 30 e 39 anos. Por outro lado, as mulheres empreendedoras têm maior grau de escolaridade – 37,5% concluíram uma pós-graduação, contra 15% dos homens. Entretanto, apesar de mais escolarizadas, mulheres se sentem menos confiantes que homens em relação ao planejamento de seus negócios: são apenas 35% delas, contra 50% de homens. “Esse é um dado que mostra como ainda precisamos desenvolver, nas mulheres, habilidades como autoconfiança e liderança, além de mais preparo para tratar de dinheiro, fazer planejamento e gestão. São desafios que a Rede Mulher Empreendedora enfrenta o ano todo, com networking, capacitação e mentoria”, diz Ana Fontes.

 

Quando o assunto é motivação para empreender, mulheres citam maior flexibilidade de horários – o que está relacionado à maternidade e cuidados com a família, como já apareceu em pesquisas anteriores – enquanto os homens apostam na possibilidade de obter maior renda e crescimento profissional. Assim, mulheres e homens empreendem por motivos diferentes e, consequentemente, em diferentes momentos da vida.

 

Mulheres têm menos tempo para o negócio e faturam menos

 

Outra importante diferença se refere à dedicação ao negócio: mulheres despendem em média 10% menos tempo em seus negócios quando comparadas aos homens, resultado de uma dedicação 24% maior às atividades relacionadas com a casa e a família. A pesquisa também mostra que, quanto menor a renda da mulher, maior é essa dedicação e menor o tempo que ela tem para negócio. “São essas as mulheres que, sem dúvida, mais dependem da renda do seu negócio para manter a família, uma equação difícil de fechar”, comenta Ana Fontes.

 

Há também diferenças importantes nos perfis dos negócios. Tanto mulheres quanto homens empreendem majoritariamente no setor de serviços – 54% e 61% respectivamente. Mas as mulheres possuem negócios menores e mais recentes. Entre os negócios liderados por mulheres:
• 61% começaram há menos de três anos
• 50% faturam até R$2.500 por mês
• 60% não tem funcionários e
• 58% funcionam na própria residência.

 

Já em relação aos negócios liderados por homens:
• 51% começaram há menos de três anos
• 38% faturam até R$2.500 por mês
• 48% não tem funcionários e
• 43% funcionam na própria residência.

 

Negócios de mulheres contratam mais mulheres

 

Quando mergulha nas dificuldades enfrentadas pelos empreendedores, a pesquisa mostra que as mulheres apontam gestão do tempo, divulgação e vendas como entraves enquanto homens concentram no acesso a recursos financeiros seus maiores desafios.

 

A dificuldade enfrentada por mulheres com divulgação e vendas, por sua vez, se reflete no relacionamento com diferentes tipos de clientes: 75% dos homens têm empresas como clientes, sendo que 57% dos empreendedores fornecem para médias ou grandes empresas. Esse número cai para 63% entre as mulheres, com apenas 45% delas contando com médias ou grandes empresas como clientes. “Foi exatamente com base nesses dados, já surgidos nas pesquisas anteriores, que criamos este ano um programa chamado RME Conecta, que desenvolve empreendedoras para fornecer para empresas de maior porte”, diz Ana Fontes. “Esse cenário precisa mudar.”

 

Mulheres empreendedoras também costumam contratar mais mulheres. Entre os negócios que possuem funcionários, 84% têm ao menos metade de mulheres na equipe quando há uma mulher na liderança, o que só ocorre em 56% dos negócios liderados por homens. Como dado curioso, a proporção de mulheres que desejam continuar empreendendo é maior que a de homens; 89% contra 79%.

 

Negócios começam sem capital e mulheres pedem menos crédito

 

Outro destaque da pesquisa deste ano é o foco em gestão financeira e acesso a crédito. Cerca de 70% dos empreendedores são os únicos responsáveis pelas decisões estratégicas sobre as finanças do negócio, mas na hora de realizar essa gestão apenas 28% das mulheres afirmam se sentir confiantes, contra 47% dos homens. A maioria dos empreendedores (55%) utiliza Excel como principal ferramenta de controle, mas mulheres também utilizam outras ferramentas mais simples como um caderno (32%), enquanto homens utilizam outras ferramentas mais complexas, como aplicativos e softwares (26%).

 

A maioria dos empreendedores são bancarizados, com 87% deles mantendo conta corrente de pessoa física. Contas de pessoa jurídica são utilizadas por 41% dos homens e 34% das mulheres. Mas boa parte dos empreendedores ainda misturam finanças do negócio e finanças pessoais: 54% das mulheres e 47% dos homens utilizam a conta pessoa física para a empresa. O uso de cartão de débito (92%), cartão de crédito (75%), maquininha de cartão (50%) e aplicações financeiras (52%) pode ser considerado alto entre empreendedores.

 

Para 40% das mulheres e 36% dos homens, o negócio começou sem capital. Durante a vida do negócio, 62% das mulheres nunca pediu crédito contra 42% dos homens. Apenas 17% das mulheres já tomaram crédito e 21% já consideraram/pesquisaram a respeito sem efetivar o empréstimo, contra 27% e 31% dos homens respectivamente. Entre os motivos para não tomar crédito, empreendedores citam principalmente o tamanho do negócio e a falta de necessidade, mas 17% afirmam que gostariam de conhecer melhor as opções disponíveis no mercado antes de tomar a decisão.

 

Entre os empreendedores que já tomaram crédito em algum momento do negócio:
• 67% das mulheres e 65% dos homens usaram o dinheiro para cobrir fluxo de caixa ou emergências;
• 62% das mulheres e 75% dos homens já tomaram crédito para investimentos físicos (estoque, maquinário, espaço); e
• 18% das mulheres e 14% tomaram crédito para capacitação.

 

Sobre as modalidades de crédito tomadas pelas mulheres, 20% pediram empréstimo a um amigo ou familiar, 18% aumentaram o limite do cartão de crédito e 16% fizeram empréstimo pessoal. Entre os homens, 20% pediram microcrédito, 23% aumentaram o limite do cartão de crédito e 17% conseguiram empréstimo com amigo ou familiar. Chama a atenção que apenas 5% das mulheres solicitaram microcrédito, opção de baixo custo e direcionada ao pequeno empreendedor. “Este é um dado que queremos entender melhor. As mulheres precisam, sem dúvida, de mais informação para poder tocar seus negócios, e nem sempre conseguem. Muitas ainda são invisíveis para o mercado, e nosso esforço está em trazer todas elas para um lugar em que possam prosperar”, diz Ana Fontes.

 

A pesquisa “Empreendedorismo no Brasil 2019: um recorte de gênero nos negócios” foi promovida pelo Instituto Rede Mulher Empreendedora e realizada pela Plano CDE, com apoio da ONU Mulheres. Participaram 2.600 empreendedores de todo o país, por questionário online, entre os dias 12 e 25 de agosto de 2019. O estudo apresenta margem de erro de 2,62%, e intervalo de confiança de 99%.

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