/>

Liderança feminina: o que aprendi quando virei gerente operacional de uma empresa na Ucrânia

*Por Lys Silva

 

Atingi a posição de gerente e isso me fez refletir sobre liderança feminina

 

Foram precisos 25 anos para que eu olhasse para o espelho e fosse capaz de dizer: – mulher, você é melhor do que imagina.  Eu nunca pensei que fosse alcançar um posto de liderança. Na verdade, isso nunca passou pela minha cabeça. Sempre falei que eu gostava de ter uma chefia direta, ali, que me cobrasse e pedisse resultado, que demandasse tarefas e atividades. Falava que havia nascido para bater ponto. Até que, de tanto bater ponto, cheguei no meu limite.

 

Aos 25 anos eu estava doente. Diagnosticada com tricotilomania e deficiência de vitamina D, com crises de pânico e desmaios. Exigi do meu corpo e da minha saúde mental muito mais do que eles poderiam suportar e colapsei. Foi nesse momento que, juntamente com meu namorado na época, hoje noivo, decidimos que seria uma boa ideia tentar a vida em seu país natal, a Ucrânia.

 

Chegamos na Europa durante o inverno, passei pela maioria dos perrengues que estrangeiros imigrantes passam quando chegam num novo país sem saber a língua, sem amigos, sem documentos e enfrentando temperaturas de -19 graus. 

 

Um mês depois, que mais pareceu seis meses, eu recebi uma mensagem no meu celular com um convite para uma entrevista de emprego em uma empresa que estava procurando pessoas que falassem português. 

 

Com um histórico de 6 anos trabalhados na área jornalística e com o currículo cadastrado em sites ucranianos para vagas de produção de conteúdo, acreditei que era uma oportunidade de trabalho nessa área, mas não foi. 

 

Fui parar na LABA, plataforma de ensino online líder de mercado na Ucrânia e em países da antiga União Soviética. O dono estava querendo expandir os negócios para “além-mar” e queria investir no mercado latino-americano, mais precisamente no Brasil. Ele perguntou se eu toparia embarcar no projeto e cuidar de um setor que ele chamou de startup dentro de uma startup. 

 

Perguntei quem mais falava português. Ninguém. Quem a gente tinha de contato ou de referencial no Brasil para iniciar esse projeto? Ninguém. Quem seria meu chefe? O dono e como orientadora uma outra funcionária mais experiente. 

 

Mas gente como assim? Eu? Vocês realmente querem que eu, que nunca trabalhei com isso na vida, toque esse projeto do zero? Sim.

 

Liderança feminina: a temida síndrome da impostora  

 

Peguei o metrô e voltei para casa pensando em todos os vídeos de síndrome da impostora que eu já tinha assistido na minha vida.  Não conseguia acreditar que uma empresa estrangeira estava depositando em mim as esperanças de sucesso de um novo projeto no Brasil.

 

Não acreditei que seria capaz de fazer com que esse projeto desse certo. Mas os boletos estavam chegando e eu aceitei o emprego pensando: ok, fico um tempo, recebo meu salário, pago as contas e tá ok. 

 

Só que não foi só isso que aconteceu. 

 

Comecei a perceber que, ao mesmo tempo que acumulava funções, tinha noção de que eu estava fazendo porque só tinha eu mesmo na empresa. Comecei a perceber que era preciso montar um equipe que me auxiliasse, que me apoiasse e que me ajudasse a desafogar a lista de tasks que não acabava nunca. Foi nessa horária que a ficha caiu.

 

Eu tinha alcançado uma posição de liderança

 

Decisões eram tomadas somente com a minha aprovação, caminhos e direções da empresa só eram seguidos depois de reuniões em que minha opinião era ouvida e havia chegado a hora de montar uma equipe e demandar resultado dessa equipe.

 

Era hora de liderar.

 

Consegui no Brasil uma fotógrafa e uma jornalista que, além de profissionais incríveis eram amigas também e pessoas que eu já conhecia o trabalho e admirava muito! No escritório, fiz reuniões para ter na equipe técnica do blog e das redes sociais.

 

Consegui mulheres que estão no começo de suas carreiras e que enxergam o trabalho não como algo maçante, mas sim como uma forma de, em tarefas rotineiras, exercer sua criatividade.

 

Precisei me posicionar de maneira bem firme com o setor de vendas que agia de maneira machista ao falar comigo e tentei criar rodas de conversa sobre feminismo no ambiente de trabalho. 

 

Foram ações pequenas, mas que puderam ser sentidas no escritório aqui na Ucrânia. Em um país em que sorrir e comunicação não violenta não fazem parte do dia a dia, tentar trazer uma maneira leve e que não reproduzisse os exemplos ruins que eu tinha da minha época de jornalista, foi um desafio no começo, mas, passados seis meses, posso dizer que deu certo. 

 

E isso é o que é mais louco nessa história toda. Tudo isso aconteceu em um semestre. Em um semestre eu me tornei diretora operacional de uma empresa, pequena, mas multinacional que é a LABA Brasil.

 

Consegui fazer com que o projeto que estava na cabeça do dono da empresa, tomasse forma, tivesse um site, um blog, consegui achar professores super capacitados e interessados em fazer parte do projeto.

 

Fomos capaz de atrair dezenas de alunos que se inscreveram em nossos cursos e, graças ao trabalho de toda a equipe, conseguimos fazer com que a LABA Brasil tivesse o nome publicado em diversos sites do país. 

 

O que eu posso dizer depois, dessa pequena, mas importante experiência é que eu demorei 25 anos para olhar para o espelho e ser capaz de dizer: mulher, você é melhor do que imagina.

 

Mulheres, mulheres negras, meninas e crianças, não esperem tanto tempo e nem deixem o tempo passar ou alguém dizer o contrário sobre vocês. Se olhem no espelho, hoje, e lembrem-se que vocês são mais incríveis do que vocês imaginam!

 

*Lys Silva nasceu em Salvador, mas migrou, com sua família, aos três anos para São Paulo. Formada em jornalismo pela PUC São Paulo, durante a universidade conquistou uma bolsa em Coimbra, Portugal, e estudou no país por seis meses. Sua trajetória profissional é formada pela atuação em veículos importantes, como Infomoney, Record, SBT, Editora Abril e BandNewsTV. Atualmente, vive na Ucrânia e é CEO da LABA Brasil, plataforma ucraniana de cursos online.

s;