Empreender aos 50

Segundo especialistas, essa fase da vida é um bom momento para concretizar um trabalho com propósito; maturidade e experiência no mercado de trabalho favorecem o sucesso

 

Cresce o número de empreendedores na faixa dos 50 anos no Brasil. Segundo o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2016, houve um aumento de 57% na faixa de empreendedores com idades entre 50 e 59 em 13 anos. Para especialistas, isso ocorre principalmente em razão das condições impostas pelo mercado de trabalho, que prioriza a juventude em detrimento da experiência.

 

Para esses profissionais, trata-se da “hora da virada” – especialmente para quem já se encontra estabilizado financeiramente e pode, agora, investir em algo novo. São aqueles que tiveram de adiar um sonho por anos, mas que entendem que, finalmente, chegou o momento certo para concretizar um trabalho com propósito.

 

Empreender nesta nova etapa da vida nem sempre significa mudar de área, mas de posição. Muitos executivos, por exemplo, partem para consultoria, mas dentro do mesmo tema que dominam. É o que aponta pesquisa da MaturiJobs, plataforma que reúne oportunidades voltadas a profissionais maduros, que aponta que 20% dos 1.047 entrevistados, a maioria na faixa dos 50 anos, são consultores (freelancers ou autônomos). Na mesma pesquisa, 15% dos entrevistados se apresentaram como empreendedores e 9% estão em fase de planejamento.

 

Para o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), essa preferência ocorre porque uma pessoa, aos 50 anos, costuma ter mais tranquilidade, conhecimento e segurança. Além disso, tem menos medo dos riscos e busca mais realização pessoal que rentabilidade.

 

Mulheres empreendedoras buscam propósito

 

“Nos nossos eventos, percebemos o aumento no número de mulheres acima de 50 que buscam empreender. Hoje, quase metade dos micros e pequenos negócios são liderados por mulheres”, afirma Ana Lúcia Fontes, 52 anos, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, que tem mais de 57 mil participantes em todo o país.

 

Ela explica que, diferentemente das mulheres que começam a empreender depois da maternidade para ter mais tempo com os filhos, as da faixa dos 50 anos buscam empreender como forma de se manter vivas, na ativa e fazer algo com o propósito que acreditam. Elas não têm mais filhos pequenos para cuidar, não querem mais o modelo tradicional de emprego ou ter de lidar com situações adversas dentro das empresas.

 

“A principal motivação não é dinheiro. Elas estão no auge da capacidade profissional. Além da experiência no mundo corporativo, têm experiência de vida e resiliência. Sabem lidar melhor com frustrações, possuem mais capacidade de perder, cair, levantar e superar dificuldades. Porque empreender tem muitos altos e baixos, e é preciso saber lidar com isso”, conclui Ana.

 

O caminho das pedras

 

O Sebrae lembra que, para empreender, são quesitos básicos elaborar um bom plano de negócios, estudar o mercado e buscar capacitação. A entidade recomenda:

 

Busque ajuda: consulte especialistas para conseguir ajuda no amadurecimento da sua ideia e de sua viabilidade, além de saber por onde deve começar.

 

Invista em capacitação: o conhecimento e as competências adquiridas durante a vida profissional devem estar afiados, mas não dispense mais conteúdo. Especialize-se na área de interesse do negócio. Faça cursos, participe de seminários, feiras e exposições.

 

Inove: observe o que há de novidade no mercado para oferecer produtos ou serviços diferenciados. Inovação implica não só investir em tecnologia, mas buscar soluções que tornem a sua empresa sustentável.

 

Seja dedicado: investir em um negócio exige determinação em qualquer idade. Há muitas pessoas com ideias, mas é preciso ter coragem e determinação para colocá-las em prática. Não ter medo de errar é uma característica de empreendedores de sucesso.

 

Edson Moraes, executive coach do Espaço Meio Moraes, complementa: “Vai empreender? Faça contas, busque investidores e reserve parte de seu capital para a gestão financeira da família, permitindo foco no negócio e não nas contas domésticas. Comprometer suas reservas, incluindo o pacote de rescisão e o FGTS, somente aumentará a ansiedade pelo resultado do negócio, algo que pode demorar. Como muitos relevam a importância do planejamento, o andamento da futura empresa poderá correr sérios riscos. E a poupança da família toda investida no negócio vai embora junto com as chances de algum resultado”.

 

Elas mudaram

 

“Trabalhei durante 35 anos como técnica em segurança do trabalho. Mas perdi o emprego aos 50 anos, me aposentei, e não consegui mais me recolocar no mercado. Há dois anos, abri uma MEI ( Microempreendedor Individual) e comecei a prestar serviço pra uma empresa que faz entregas. Nunca tinha trabalhado nesta área de logística, mas estou gostando muito. Uso o carro pra fazer as entregas, que são todas na região onde moro, próximo ao Aeroporto de Congonhas. Trabalho sozinha, carrego o carro de manhã, faço as entregas e, no fim da tarde, já estou de volta. Ganho R$ 5 por entrega e chego a fazer até 60 entregas por dia. Tenho gasto com combustível, mas essa renda complementa bem minha aposentadoria. Estou muito satisfeita”. Andrea Rizzatti, 53 anos, empresária.

 

“Aos 47, senti que não queria parar de trabalhar, mas não queria mais o serviço público. Fui estudar Direito, apesar de ter me formado em Psicologia muito jovem e nunca ter atuado. Após me formar, estava estudando para o exame da OAB e resolvi fazer o curso de inteligência emocional Febracis. Descobri, então, que não queria advogar. Estudei e me formei como coach. Fiz mestrado nos Estados Unidos, voltei ao Brasil e criei um programa que proporcionava às pessoas, na casa dos 50, criarem projetos. Comecei a atuar como coach em 2014 e, no ano seguinte, passei a atender apenas mulheres. Em 2016, me aposentei e criei o Clube 50+, pois percebi que aumenta muito o número de divórcios entre pessoas nesta faixa. Via mulheres tristes, perdidas, com condições financeiras e trabalho, mas sem amigos ou relacionamentos afetivos. Fazia eventos sociais nos quais os homens também iam. Já no fim de 2017, conheci a DreamsTrip, um clube de viagens norte-americano e me tornei representante. Isso me proporcionou uma boa comissão e liberdade geográfica. Em 2018, parei com tudo e fiquei só com este trabalho. Hoje sou diretora da empresa e pretendo morar em Portugal. Sou feliz, me vejo como uma turista profissional, treino minha equipe, que tem muitas mulheres com mais de 50 anos, ressuscitei a psicóloga que existia em mim e tranquei meu mestrado em gerontologia para poder viajar, mas pretendo retomá-lo no futuro”. Elizabeth de Jesus Maria (Bette Maria), 58 anos.

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