Mulher da semana: Ana Fontes para Marie Curie

frente1_materiaana

Entrevista publicada na íntegra:
 
Marie Curie é uma newsletter que traz conteúdo para mulheres. Toda semana, discutimos algum tema que tenha impacto na maneira como você trabalha, se posiciona e se relaciona com a sociedade. Na edição de hoje:
 
Graduada em Publicidade e Propaganda, com pós-graduação pela ESPM, USP e especialização na Fundação Dom Cabral
Fundadora da Rede Mulher Empreendedora
Presidente do Instituto Rede Mulher Empreendedora
Cofundadora do site Elogieaki e do coworking NATHEIA
Palestrante TEDx São Paulo
Uma das três vencedoras da edição 2017 do Goldman Sachs & Fortune Global Women Leaders Mentoring
 
Não foi fácil conseguir falar com Ana Fontes. Em nosso primeiro contato, na quarta passada, combinamos uma entrevista para a sexta. Chegou sexta, mas a conversa precisou ser remarcada para a segunda. Na segunda, acabou mudando para terça. “Te peço mil desculpas”, explicou ela pelo telefone, quando remarcamos o nosso papo pela segunda vez. “Essa situação nunca me acontece, é que esses últimos dias estão bem corridos por aqui”. Claro que a gente entendeu. Afinal, era de se esperar que seria uma tarefa das bravas conseguir segurá-la ao telefone nessa época do ano.
 
É que hoje (caso você leia essa edição na quinta) Ana e toda a sua equipe estarão no Club Homs, na Avenida Paulista, em São Paulo, para a sétima edição do Fórum Empreendedoras. O evento é uma espécie de conferência destinada a quem já é dona de um negócio ou ensaia os primeiros passos para empreender. Em salas (normalmente lotadas), empresárias, executivas, especialistas e influencers sobem ao palco tanto para falar sobre conteúdo estratégico da gestão de um negócio quanto para dividir suas histórias com a plateia.
 
Voltado especialmente para mulheres, o fórum é parte da grade de eventos organizada pela Rede Mulher Empreendedora . A organização foi cofundada por Ana em 2010 e, atualmente, conta com mais de 300 mil pessoas cadastradas.
 
A RME, como é conhecida, é uma das instituições de referência quando falamos de projetos de apoio ao empreendedorismo feminino. Sua atuação vai desde produção de conteúdo a eventos de networking, cursos e mentorias. O objetivo? Ajudar mulheres a tirar um projeto do papel. A iniciativa é voltada para o gênero feminino, principalmente, por causa desse motivo aqui: uma mulher com um negócio bem-sucedido é capaz de gerar impacto social a todos à sua volta. Representa, em outras palavras, maior impacto econômico.
 
Vale saber que essa tese não é defendida somente por Ana. O ganhador do prêmio Nobel da Paz Muhammad Yunus criou o Grameen Bank, o primeiro banco do mundo especializado em microcrédito, com o mesmo pensamento. Em um estudo feito pelo Goldman Sachs, descobriu-se que, quando a mulher começa a receber mais dinheiro, uma das primeiras coisas que ela muda em seu estilo de vida é a proteína que serve à família. Já os homens tendem a comprar eletrônicos.
 
* As respostas a seguir foram levemente editadas para melhorar a fluidez do texto.
 
Sete perguntas para explicar o seu universo

 
1. Como foi sua primeira experiência como dona de um negócio?
 
“Trabalhei por 25 anos como executiva e, em 2007, pedi demissão para ficar em casa e pensar em algo que me permitisse trabalhar e ter mais tempo para minha família e outras esferas da vida. Foi entre 2008 e 2009 que comecei minha carreira como empreendedora de fato, quando fui cofundadora de uma plataforma online de recomendação e, mais tarde, um espaço de coworking.

Além do fato de que a internet daquele tempo não dispunha de nada perto da estrutura que tem hoje, foi nesse processo de criação e gestão da empresa que eu tive inúmeras dificuldades para empreender. E foi aí que veio a ideia de dividir um pouco do que eu sabia com as outras pessoas.”
 

2. A ideia de criar um projeto como a RME já estava na sua cabeça ou o projeto meio que aconteceu?
 
“Eu não tinha a menor ideia de que iria dar no que deu, rs. Há 10 anos, o empreendedorismo feminino não era pauta, o ambiente era bem inóspito. Minha participação nesse mundo começou de uma maneira bem informal: eu criei um blog e escrevia artigos e outros conteúdos sobre empreendedorismo durante o meu horário livre, dando dicas de cursos gratuitos e outros conteúdos que facilitaram minha vida.
 
Só que aí começou a juntar um monte de mulheres que também queriam empreender, mas não sabiam como e, em menos de seis meses, meu blog começou a receber milhares de acessos. Era uma coisa muito doida, porque não havia nada estruturado, eu só falava sobre as coisas que eu fazia e que tinham dado certo para mim.

Daí a Rede foi crescendo: eu era convidada para falar em eventos, palestras etc. Só que eu ainda tinha dois negócios para trabalhar. Então acabei fechando o coworking, vendendo a plataforma de indicação de negócios e me concentrei naquilo que começou como uma atividade paralela na minha vida.

Hoje, a RME conecta cerca de 300 mil mulheres no Brasil inteiro. Só no ano passado, realizamos 600 eventos e uma série de ações para ajudar as mulheres que nos procuram a se identificarem no papel de empreendedora. Não cobramos nada pelos conteúdos que publicamos. Trabalhamos em conjunto para que elas desenvolvam seus negócios porque temos muita convicção de que essa é uma causa importante.”

 
3. Houve alguma mudança no perfil da empreendedora brasileira nos últimos anos?
 
“O cenário mudou um pouco. Nas pesquisas que a gente faz durante os eventos, a percepção que fica é a de que as mulheres que comparecem têm um desejo de empreender, mas não sabem por onde começar.

Acontece que, hoje, por mais informação que você tenha sobre como criar uma empresa, não há um caminho que explique como isso pode ser feito. Você vai no site de Sebrae, por exemplo, e encontra um monte de dados, mas não um passo a passo sobre o que você precisa fazer em cada momento.

Por conta disso, as mulheres continuam chegando [aos eventos] com pouca ou nenhuma informação. Ou pior: com informação deteriorada. Por exemplo, muitas das empreendedoras com quem eu falo acreditam que precisam fazer um plano de negócios assim que têm a ideia da empresa. E então a gente explica que no início esse tipo de coisa não é necessária.”

 
strong>4. Quais são as principais dificuldades encontradas pelas mulheres que querem abrir uma empresa?
 
“Empreender, independente do gênero, não é simples no Brasil.”

 
“Mas essa situação fica ainda mais complicada para as mulheres, por três razões principais. A primeira é que a gente ainda tem uma carga muito forte de ser a pessoa que cuida da família, seja das crianças, dos idosos ou de algum parente que precise de uma ajuda temporária. Sem falar nas obrigações com a casa e com o trabalho em si, as quais nos deixam ansiosa o tempo inteiro e com medo de não conseguir dar conta de tudo. Esse ainda é um problema bem significativo.

A segunda questão forte é a falta de capacitação para empreendedoras. O que você tem hoje são cursos rápidos e solos, mas é muito difícil encontrar alguma formação que realmente capacite as mulheres. Um exemplo de programa que faz isso é o 10.000 Mulheres, organizado pelo Banco Goldman Sachs e tocado no Brasil pela FGV. Ele é ótimo porque abrange o negócio como um todo e ajuda a desenvolver um olhar mais voltado para gestão e finanças. Mas ele atinge um número pequeno de empreendedoras. Então, precisamos de um formato que traga mais capacitação e seja mais acessível.”

 
5. Falando sobre diferenças de gênero, como a discriminação se manifesta no mundo das empreendedoras?

“No mundo corporativo, existe aquela discriminação que todo mundo conhece e eu mesma já vivi, como ser preterida em uma promoção ou um processo seletivo por ser mulher. Ou de não conseguir desenvolver um trabalho, porque o seu superior acredita que você não teria capacidade de executá-lo, já que ele precisava de alguém que ‘fosse forte e brigasse com os funcionários’.

No ambiente empreendedor, você não tem essa discriminação direta, mas existem alguns campos dentro desse universo nos quais o número de mulheres é menor, como tecnologia e indústria. Neles, essas situações acabam acontecendo. O cenário está mudando, porém esse é um processo bem lento e que ainda vai levar algum tempo para causar uma mudança mais significativa.”

 

6. Pode falar sobre algum projeto em que a RME está trabalhando ou vai trabalhar no futuro?
 
“Estamos com uma iniciativa com o Google, com quem já trabalhamos há 3 anos. Em 2017, começamos um projeto para ajudar mulheres em situação de vulnerabilidade social. Criamos todo o processo de metodologia e capacitação e levamos o projeto para Paraisópolis e Brasilândia. Fizemos um treinamento de capacitação com as moradoras para entender o ambiente onde elas vivem e como poderíamos melhorar o conteúdo que a gente produziu para deixá-lo mais útil às suas necessidades.

Agora, a Rede foi selecionada para receber uma doação de R$ 3 milhões via Google.org para capacitar 130 mil mulheres até 2020. Esse prêmio foi muito importante para a gente. Não só pelo dinheiro, mas também pelo reconhecimento — no ano passado, por exemplo, a ganhadora foi a Fundação Lemann.

Vamos tocar um projeto bem desafiador. O foco dessa nova fase é na região Nordeste, onde a condição de vulnerabilidade é maior e faltam mais recursos para quem está lá e deseja empreender.”

 
7. Nas mentorias que você faz com as empreendedoras, existe uma mensagem principal que você se preocupa em passar para elas?

 
“Já conversei com mais de mil empreendedoras, e é sempre uma troca. Eu valorizo muito essa atividade, porque eu teria empreendido de forma muito melhor se alguém tivesse me orientado.

Costumo dizer que você não precisa ficar milionária para saber que o seu negócio deu certo. Se ele se paga e é possível investir em si mesma e em coisas que melhorem sua qualidade de vida, já é um sinal de sucesso.

Outra coisa que eu tento bastante é mostrar que não existe uma receita pronta para que o negócio dê certo. Sempre apresento a vida como ela é, porque eu adoraria que alguém tivesse me chacoalhado anos atrás e dito: ‘empreender não é fácil, Ana, e nem tudo vai funcionar do jeito que você acha que vai’.

Eu não enfeito, mas também não desmotivo. Digo para quem quer empreender que essa é uma atividade na qual você tem uma chance de construir uma coisa nova e que pode ajudar a vida de muita gente. Mas que dá muito trabalho. Tento colocar para elas que, se o objetivo é realmente seguir esse caminho, é importante saber que haverá dificuldades não previstas.”
 
1# Mãe e empreendedora
 
A maternidade é um dos principais gatilhos para a mulher se tornar empreendedora. Isso acontece porque, após o nascimento ou adoção, ela fica com uma carga ainda maior de responsabilidades e precisa encontrar um meio de vida que a ajude a ganhar dinheiro e lhe dê uma flexibilidade no seu dia — algo que dificilmente se encontra no mundo corporativo.

 
2# Sintonia é a chave
 
Em geral, as mulheres investem em negócios que estão em sintonia com seu momento de vida. Se ela acabou de ter uma criança, por exemplo, é mais provável que invista em um negócio relacionado ao universo infantil, como venda de roupas ou acessórios para bebês.

Ter mais flexibilidade no dia não significa menos trabalho. Existe uma ideia de que trabalhar de casa é mais fácil, mas isso não é verdade. Além de tocar todos os aspectos relacionados à empresa, as mulheres precisam equilibrar o cuidado com a casa e, muitas vezes, com os filhos ou algum familiar que demande cuidados.
 
Por fim, me conte uma curiosidade
(de uma experiência marcante que você tenha vivido)

 
“Em 2010, eu fui selecionada para ser aluna do programa 10.000 Mulheres do Goldman Sachs. Desde então, mantive contato com as outras alunas e os responsáveis do programa no Brasil. No ano passado, a equipe do projeto comentou comigo sobre um programa de reconhecimento que o banco estava fazendo em parceria com a revista Fortune: era um processo seletivo ao redor do mundo que procurava as melhores ideias de projetos focados no empreendedorismo feminino que tivessem impacto global.
 
Pois bem, escrevi minha ideia, que foi um app que conectasse quem já participou do programa ‘10.000’ com empreendedoras que precisassem de ajuda. Pensei ‘É isso aí, vamos ver no que dá’. Dias depois, recebi uma mensagem informando que a minha ideia havia sido uma das três selecionadas.
 
Eu fiquei muito feliz porque, além da premiação em dinheiro — USD 50 mil, para ser dividido entre as vencedoras, que é claro que é importante —, tive a chance de participar como palestrante de dois painéis do Most Powerful Women. Esse é um evento criado pela Fortune que reúne as 450 mulheres de maior destaque do mundo dos negócios, como Mary Barra, CEO da General Motors, e Indra Nooyi, da PepsiCo.
 
E eu tive a oportunidade de contar a história da RME para uma audiência como essa. Confesso que até bateu um medo, rs. Mas o receio passou e segui em frente. Foi uma oportunidade única e incrível na minha vida.”

s;