História Inspiradora – Empoderando mulheres na lavoura

Areado, Minas Gerais, Brasil. 07/2002. 
Lavoura de cafe, Catuai Vermelho./  Worker in a coffee farm.
Foto © Marcos Issa/Argosfoto

Por Leticia Seda, fundadora da Amecafé Mantiqueira, uma Associação de Mulheres Empreendedoras do Café da Serra da Mantiqueira

 

Em minha vida de cafeicultora de apenas 12 anos, me dediquei ao aprendizado de toda cadeia produtiva do café. Sempre muito questionadora e ávida por formar minhas próprias ideias, fui aprendendo e conquistando meu espaço de mulher na cafeicultura e como produtora de cafés especiais. Mas isso não bastava, pois, o conhecimento não pode ser
aprisionado e nem se deve tentar fazê-lo.

 
Durante 9 anos morei longe de minha lavoura. Desta forma, não tinha muito contato com as pessoas do povoado próximo, mas esta realidade mudou e então pude conhecer muitas mulheres cafeicultoras e suas realidades.

 

Mulheres que guardavam café em casa, outras vendiam o café a qualquer preço sem ter a noção de seu verdadeiro valor, pequenas proprietárias, catadoras, arrendatárias, brancas, pardas, negras. Mulheres que adubam, roçam, umas colhem e outras cuidam do terreiro. Elas faziam café como os avós e, embora quisessem aprender, não tinha quem levasse o conhecimento.

 

Foi neste cenário que entrei para unir e capacitar estas mulheres, fundando inicialmente a IWCA Mantiqueira e no momento necessário a Amecafé Mantiqueira. No inicio era apenas no distrito dos Ferreiras, mas logo foi se expandindo chegando hoje a 8 cidades, pois a sede de conhecimento e de organização é enorme. Fazer parte de uma associação de mulheres é uma grande valorização pessoal, principalmente para as que estavam a margem da sociedade cafeeira. Eu comecei a fazer reuniões quinzenalmente levando a elas os conhecimentos necessários para cuidar da lavoura, da colheita, do pós colheita e de venda. Convidava agrônomos conceituados para falar com elas, Q-grades, e quando não encontrava ninguém, eu mesma falava.
 

Assim como uma esponja seca que é colocada em água, elas absorviam todo conhecimento. Mas o trabalho não poderia se restringir somente a mulheres, então os filhos e maridos também eram convidados a participar das reuniões. Meu foco era levar conhecimento a fim de melhorar a qualidade de vida delas. Dessa forma, a presença da família era ponto fundamental.
 

Na primeira colheita formamos uma parceria com uma cooperativa que proporcionou as mulheres, pequenas produtoras e arrendatárias, depositarem seu café fornecendo frete, sacaria e uma taxa de adesão simbólica. Algumas não conseguiram dormir aquela noite, pois seria a primeira vez que levariam o café para uma cooperativa. Foi lindo ver desabrochar a valorização pessoal e a inclusão. Naquele ano, quando o comprador de sempre chegou para dar preço ao café, elas já sabiam o quanto valiam, pois com a dedicação e amizade de um Q-grader os cafés já haviam sido provados e pontuados. Elas se mostraram ótimas negociantes pois venderam o café no preço justo.
 

Lembro de quando, pela primeira vez, acompanharam a degustação de café e souberam que o café era de bebida mole. Uma explosão de alegria e euforia mas também de indignação por estarem vendendo seus cafés tão abaixo do preço. Também foi marcante quando pela primeira vez saíram do distrito rumo a capital, para a SIC. Era responsável por 24 mulheres. Algumas usando o elevador e entrando em um hotel pela primeira vez. Lindo de ver o brilho nos olhos e a postura de empoderada.
 

Quando o grupo começou a crescer, eu tive de me desdobrar entre as reuniões (que então eram em 4 cidades), fazer o estatuto, fechar parcerias, fazer o site, publicar no facebook, cuidar de eventos e de minha casa. Retirava recursos meus para poder realizar o empoderamento delas, pois o caixa da associação era zero.
 

Mas não foram apenas elas que aprenderam, eu também aprendi muito. Uma pergunta que sempre me fazem é se homens já me ameaçaram ou me discriminaram pelo meu trabalho e eu sempre respondi que não, homem não, mas o sexo oposto sim. Existem pessoas inescrupulosas que tentam usar nosso nome, Amecafé, para fins próprios, mas o que ficará comigo, guardado na memória e em meu coração, são as pessoas que se prontificaram a ajudar acreditando na causa, e estas são muitas. A Amecafé só existe na serra da Mantiqueira. Hoje somos 62 mulheres de 8 cidades.
 

Hoje as mulheres já estão se certificando e sei que produzirão cafés ainda melhores e terão controle sobre o custo de produção, objetivando melhorar a qualidade de vida. Atualmente renunciei o cargo de Presidente da Amecafé Mantiqueira, ficando apenas com o cargo de diretora de Marketing Digital, por acreditar que “o pássaro só voa se for empurrado pela mãe”. Ou seja, temos cabeças maravilhosas para também fazer a diferença e, para que isso desabroche, me retirei para os bastidores. Existem várias protagonistas prontas a entrar em cena. Procuro valorizar e empoderar, sem que percam os valores básicos. Sei que todas temos algo para ensinar, para oferecer. Algumas podem nem ter um português correto, mas são lideres natas e é preciso que desenvolvam e ocupem esta liderança!

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