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Mulheres na obra – Katherine Pavloski [série]

Por Camila Pinotti
 
Para a segunda história trazemos Katherine, sócia da M’ana, Manutenção de Mulher para Mulher. Foi em meio a uma manhã ensolarada na Padoca do Mani que nosso papo aconteceu. Em poucos minutos fica claro seu desejo por mudança, do tipo que contagia qualquer pessoa e você vai se perguntando: Qual a minha parte nisso? O que falta para o mundo mudar amanhã?
 
Katherine é arquiteta e no início de sua carreira fez vários estágios na área de projeto, passando por Decoração, Urbanismo e Compatibilização, mas ela queria ir a campo e atuar na prática, sair do teórico. Conseguiu estágios em obras de grande porte, como construção de shoppings. E foi principalmente dentro desses canteiros que ficava gritante a diferença na presença de homens e mulheres. Num universo que girava em torno de 500 profissionais, o máximo com que se deparou foram outras 3 mulheres, todas arquitetas.
 
Katherine nos conta sua experiência…
 
Acredito que nossa cultura contribui para isso. Nas faculdades de arquitetura a obra é tratada pelos alunos como um ambiente sujo e barulhento. Motivo pelo qual alguns preferem atuar dentro de escritórios, principalmente se falarmos de instituições particulares.
 
Já na periferia, homens e mulheres fazem de tudo. Mesmo assim, as mulheres são mal vistas para certos serviços. É preferível vê-las como babás ou faxineiras, “quando na realidade o que elas precisam é de um exemplo, mulheres se ajudando e trocando experiência”. Existe espaço para todas, só temos que tratá-las com respeito.
 
Lidamos com assédio e falta de credibilidade. Um prato cheio para minar a autoestima de mulheres que atuam no canteiro, abalando nossa confiança para a tomada de decisões. Há quem acredite que somos muito sensíveis e não vamos aguentar a discussão. De fato o trabalho no canteiro não foi fácil, você é questionada sempre e o questionamento que te fazem é diferente daquele feito aos homens. Mesmo assim tive sorte, e encontrei pedreiros dispostos a ensinar e a serem ensinados.
 
Existe diferença entre mulher e homem no canteiro. Quando encontramos mulheres, esse ambiente tende a ser mais limpo, com menos desperdício de materiais. Além das mulheres faltarem menos ao trabalho.
 
Acho que as mulheres são tão questionadas que elas priorizam o aperfeiçoamento técnico. Buscam constantemente manuais, cursos e normas. Essa é uma das nossas preocupações no M’ana, tanto que oferecemos cursos para capacitar mulheres que queiram atuar na construção civil. Aos poucos, percebemos que além do treinamento técnico é necessária uma educação financeira. Nossas grandes referências foram as ONGs Cimento e Batom, e a Mulheres na Construção, da Bia Kern.
 
A ideia original era montar uma equipe com o pessoal já capacitado pela Bia. Ensiná-las a gerir suas agendas e pulverizar isso pela cidade. Infelizmente essa proposta se mostrou inviável, e tivemos que nos responsabilizar por essa capacitação aqui em São Paulo. Temos uma forma de diálogo diferente, adaptada à realidade delas. São mulheres da periferia, vítimas de violência, e queremos prepará-las para ingressar nesse mercado.
 
A M’ana começou com a Ana, após um caso de assédio que ela sofreu com um entregador de gás. Foi assim que ela decidiu que faria todos os serviços de manutenção por conta própria, ou apenas contratando prestadores de serviço que fossem mulheres. Ela não achou empresas com esse perfil e percebeu que seria uma oportunidade de negócio. A Ana é formada em cinema, mas desde criança acompanhava os irmãos quando o avô ensinava esses serviços de manutenção para casa.
 
Eu já estava cansada da rotina exaustiva de obras para shopping e cogitava a pedagogia para não ter que voltar aos projetos. Foi quando um de seus posts apareceu na minha timeline. E nesse ponto pensei, “é isso que quero fazer!”. Entrei em contato com ela e propus a parceria.
 
Independente de termos uma preocupação social em nosso negócio, tivemos os mesmos desafios de qualquer outra empresa, como a questão administrativa. Sentimos falta de cursos específicos ou mais próximos da realidade do nosso negócio. E não é fácil equilibrar o tempo entre os serviços e as atividades administrativas. Estamos sempre atentas à cursos para empresas de pequeno porte, e tentamos filtrar apenas o que é necessário. Isso evita a sensação de que não daremos conta de tudo.
 
Sem contar que as condições tributárias não ajudam. Temos um simples que é bem complicado. E o desafio constante de crescer de forma saudável. É delicada a condição da mulher mesmo no mundo dos negócios. Em geral ela não sabe se vender. Enxerga aquele ato como venda da pessoa e não da empresa, e seguindo esse raciocínio, essas pessoas estariam te usando.
 
E se você trabalha com obra tem que lidar com os estereótipos. Uma cobrança da masculinização para ser aceita.
 
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E se você é mulher e se identificou me mande um e-mail, quero te conhecer! (camilapinotti.arquitetura@gmail.com)

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