colaboração />

“Sou do corporativo, como me encaixo nesse novo mundo colaborativo?”

Por Fernanda Nascimento
 
Muitos amigos trabalham em grandes empresas e ainda não vivem a economia colaborativa. Diversas vezes vejo um brilho intenso nos olhos quando o termo é mencionado, assim como acontece com a palavra startup: é como se houvesse um oásis fora do mundo corporativo onde a vida é mais leve, mais divertida e interessante.
 
Não raro, mencionam a vontade de, um dia, quando a situação econômica melhorar, mudar de lado. Claro, é um mercado mais atraente, mas há um ciclo de maturação até que se ganhe salários nos patamares dos que são pagos pelas grandes corporações, conforto que muitos não têm coragem de deixar, mesmo que seja em troca de mais qualidade de vida. Sem julgamentos, claro, eu mesma levei anos para aceitar a condição de empreendedora e entender que através dela talvez fosse menos rica, mas provavelmente mais feliz.
 
No entanto, uma coisa que ainda me intriga é que não é apenas o salário que define cada um dos mundos: tem muita atitude envolvida. Então, conversando com alguns amigos, resolvi discorrer sobre as dúvidas e “pré conceitos” que esse tema envolve.
 

Quero fazer parte, por onde começo?
 

Eu lembro de mim mesma participando dos papos no mundo corporativo. Segundo uma crença que não faz mais sentido, demissões aconteciam com uma probabilidade altíssima por falta de competência do profissional e se esse profissional era incompetente, não servia para a minha network. Grande engano, ainda mais em tempos de crise. São tantos os motivos que podem levar um bom profissional à demissão – empresas à falência, projetos ao insucesso – que não podemos mais nos deixar levar por nossos antigos conceitos e perder o bonde desse movimento novo e diferente que ainda está se consolidando.
 

Colaborar, nesse caso, pode ser não se deixar enganar pelo que você não tem certeza, pelo que pode ser diferente do que você imagina. Como a segurança e estabilidade do seu emprego na corporação ou que os que estão saindo desse mundo estão fadados ao insucesso. Se esforce para manter os laços, não deixe sua network se perder. Hoje percebo como alguns dos meus antigos pares demitidos estão em excelentes posições nas corporações e outros no mundo empreendedor.
 

Nunca subestime uma conexão. Se puder ajudá-la nos momentos difíceis, faça isso. Não precisa ser com dinheiro ou com emprego, pode ser com uma palavra, um conselho ou apresentando contatos que possam apoiar essa pessoa de alguma forma. Não fuja.
 

Se essa conexão era um profissional brilhante e se tornou um pequeno empreendedor, indique os serviços, ajude comprando dele. Lembre-se que parte de sua capacitação foi feita sob uma estrutura privilegiada e o conhecimento não se perde. O conceito de economia colaborativa é justamente se unir a quem possa oferecer o que você não oferece, unindo recursos financeiros e humanos.
 

Eu aprendi que para um ganhar outro tem que perder – e isso é um mito!
 

Já escutei essa frase várias vezes na vida, como se o concorrente fosse inimigo mortal. Mas outra boa forma de colaborar é se livrando desse estigma competitivo que a gente traz quando sai de uma grande empresa. Claro que a concorrência é livre e que politicagem sempre vai existir, mas não precisa de trapaça. Pelo contrário, juntos somos mais fortes, tenho certeza que também já escutou isso por aí.
 

Alguns empreendedores saíram da corporação, mas a corporação não saiu deles, é fato, e estão sempre armados, às vezes atacando os pares como se fosse uma guerra. Lembre-se que colaboração é exatamente não ir contra, mas se unir, trabalhar junto, ter impacto positivo no ecossistema ganhando menos em um só negócio, mas muito mais no volume de negócios que obtemos com as parcerias.
 

Minha empresa tem vários pares e me orgulho deles. Ao longo dos anos crescemos juntos e temos uma relação de fidelidade saudável que me deixa mais feliz e menos tensa. Temos contratos entre nós, que garantem juridicamente a nossa amizade, acima dos negócios. Já tive decepções no caminho, mas entendo que as pessoas ainda estão aprendendo. Não tem projeto nosso que comece sem que possamos identificar parceiros para embarcar conosco e assim seguimos juntos.
 

Eu tenho uma certeza muito grande dentro de mim que meus filhos viverão esse modelo de forma mais estruturada e entendendo que esse é o certo. Acho que esse é um grande legado que essa crise global nos deixa, mas que vai apoiar a construção de um modo de trabalhar diferente e mais sustentável para as próximas gerações.

 

s;