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O gênero da tecnologia

Artigo de Beatriz Laus Marinho Nunes, originalmente publicado pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio 

 

“Mulher não serve para programar”;

“Engenharia é coisa de homem. Na minha época mulher não fazia engenharia”;

“Não tem lugar para mulheres na indústria da impressão 3D”;

Eu nunca casaria com uma matemática!”

 

É de se espantar que em pleno século 21 ainda tenhamos que escutar frases como essas. Não causa constrangimento alheio pensar que existem pessoas que acreditam na ideia de que meninas e mulheres, por questões biológicas, não teriam capacidade de atuar nas áreas da computação, da ciência e da engenharia? Meninas e mulheres que decidem cursar engenharia, programação e matemática ainda são minoria e passam por situações desconfortáveis apenas por terem escolhido um curso que, em regra, seria destinado ao público masculino. A diferença técnica entre homens e mulheres explica esta concepção? Evidente que não. Trata-se de um problema cultural e que agora atinge novas áreas da tecnologia, como a impressão 3D.

 

Impressão 3D é uma das maiores tendências de inovação e já se estabeleceu firmemente na indústria, contando com empresas e centros de pesquisa em todo o mundo que se dedicam a desenvolver e estudar essa tecnologia. No entanto, uma triste verdade permanece: a indústria tecnológica é ainda mais restritiva a mulheres do que outras. Em recente relatório elaborado pela PayScale, demonstrou-se o percentual feminino em algumas multinacionais do setor: Google aparece em 6º lugar com 30%, Microsoft com 27% e Amazon com 26% (entre outras). Em primeiro lugar, ficou a empresa eBay com um contingente feminino de 47%.

 

Apesar do avanço e do impacto da industria de tecnologia, a participação feminina ainda é pequena. Essa foi uma das razões que incentivou a empresa Intel a produzir o relatório MakeHers: Engajando meninas e mulheres em tecnologia através da criação e invenção, partindo do chamado movimento maker. O objetivo do movimento maker é viabilizar a criação e a invenção de qualquer coisa imaginável. O MakeHers foi uma estratégia para diminuir, senão acabar, com a disparidade de gênero, aumentando o acesso e interesse de meninas e mulheres nas áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). A pesquisa revelou três das principais razões que impedem maior participação feminina na área: 17% das mulheres são excluídas por serem mulheres, 17% das mulheres revelaram que, por questões culturais, o movimento maker seria impróprio para elas e 7% das meninas e mulheres entrevistadas revelaram que não se sentem seguras o suficiente para participarem das atividades makers.

 

Iniciativas como essa são extremamente importantes para que meninas e mulheres se sintam encorajadas e se firmem no âmbito da tecnologia, sem se sentirem ameaçadas ou menos inteligentes e, principalmente, sem medo de sofrerem abusos, sejam eles físicos ou não. E isso não é desculpinha ou exagero ou mimimi. Em artigo, a chefe de redação do site 3Dprint.com, Sarah Anderson Goehrke, conta como foi assediada em plena conferência e como dos 30 cartões que ela recolheu durante o evento apenas 7 eram de mulheres. Ao comparar os títulos, ficou surpresa em verificar que, enquanto mulheres tinham cargos de gerentes e gestoras, os homens carregavam títulos de CEO, Vice-Presidente, Diretor, Fundador, entre outros. Isso, por si só, nos diz muito sobre questões relacionadas a disparidades de gênero e igualdade no âmbito de trabalho.

 

Espaços e iniciativas como as acima mencionadas também estão presentes no Brasil. Camila Achutti, de 24 anos, fundou a Ponte21, uma consultoria de inovação e tecnologia que promove a conexão da tecnologia com as pessoas, além de ter desenvolvido o blog Mulheres na Computação, que se tornou referência para a abordagem do gap de gênero na tecnologia. Outro exemplo é Gabriela Agustini, que fundou o makerspace Olabi, cujo objetivo é estimular a aprendizagem de novas tecnologias. Em entrevista, Gabriela explica de onde veio a ideia de criar um espaço como o do Olabi. Por sempre se sentir desconfortável em espaços de alta tecnologia dominados por meninos com alto conhecimento de engenharia, Gabriela buscou criar um espaço que seria atraente para todos – até mesmo para iniciantes. Ela defende que as pessoas não devem se sentir constrangidas por não saberem usar uma impressora 3D ou outras tecnologias. E o espaço oferece essa possibilidade.

 

Agora, em abril de 2017, ocorrerá o 11º Women in Information Technology (WIT), uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) para discutir assuntos relacionados a questões de gênero e Tecnologia da Informação (TI). O workshop promoverá debates relacionados à mulher e ao seu acesso à TI, tendo como fim último a inclusão de mulheres no mundo da tecnologia. Quem sabe com mais iniciativas como essas conseguiremos superar a concepção de que mulheres não “servem” para programar ou para serem engenheiras e matemáticas. O recado já está dado: podemos ser o que quisermos.

 

* Beatriz Laus Marinho Nunes é advogada, atriz e pesquisadora do ITS Rio.
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