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Mediação de conflitos: a porta ao lado

Por Gizelma Lima

A porta ao lado é qualquer alternativa que nos impeça de escolher a dúvida à certeza; a tristeza à alegria; a guerra à paz; a gratidão à ingratidão; o ódio ao amor; a união à discórdia… o conflito ao consenso. No que concerne ao consenso, essa é a opção menos onerosa e menos desgastante para as partes. Especificamente quando o objeto do conflito reside em questões corporativas, familiares, de matrimônio ou envolve crianças. Mas por que o conflito é tão presente nas questões do nosso dia a dia?

 

Será que é porque não temos capacidade de evitá-lo ou porque não temos senso prático nas coisas? Eu diria que não. O conflito surge da possibilidade de escolhas toda vez que estamos diante de coisas ou situações divergentes; possibilidades que estão ligadas ao mesmo caso e que exigem de nós a capacidade de escolher entre uma das alternativas — e de preferência a melhor, aquela que não nos consuma com arrependimento.

 

No primeiro momento, nossa postura é de angústia, porque seria muito mais fácil a resposta imediatista, ou seja, aquela onde não tivéssemos de pensar muito e tampouco analisar a consequências de nossas escolhas, sejam positivas ou negativas. Por essa razão a tomada de decisão é tão difícil em alguns aspectos de nossa vida.

 

No mundo dos negócios, muitas vezes o desafio é ainda maior, porque envolve dilemas éticos. Nós encontramos muitas dificuldades hoje em dia com posturas éticas. O bem-estar comum e os direitos fundamentais estão sempre em confronto. Ter certeza de que a nossa escolha é a melhor alternativa não é fácil, a menos que escolhamos.

 

Corremos um risco residual pequeno quando as nossas escolhas são feitas usando menos a emoção em detrimento da razão. A emoção nos tira a concentração nos elementos mais importantes que compõem o processo decisório. Nos afastando das melhores alternativas de escolha.

 

O ego é um elemento extremamente negativo e que permeia as emoções quando estamos diante de um processo decisório. Em razão disso, tendemos sempre as achar que estamos certos de tudo. Esse sentimento, é o que nos leva a deixar de lado, sem perceber, o verdadeiro bem comum que se espera no final. Deseja-se, em alguns casos, que alguém decida por nós, porque, de fato, a pessoa que não está inserida no contexto não está afetada emocionalmente e, portanto, tem mais condições de analisar a situação de maneira racional e sistêmica.

 

Na realidade, por estar do lado de fora, as chances são de que ela seja capaz de visualizar pontos que as partes não conseguiriam, sufocadas dentro do problema. Obviamente, um olhar externo nos oferece algumas garantias, mas a decisão ainda é nossa. E então voltamos à estaca zero.

 

No mundo jurídico, em que o Juiz se baseia nos fatos descritos nos autos e mediante as representações das partes, não existe subjetividade — o que fornece maior garantia jurídica para as partes. No entanto, não necessariamente a decisão do magistrado será efetivamente mais satisfatória para todas as partes. Os avanços nesse setor, têm demonstrado excelentes resultados em países do primeiro mundo, com o uso da mediação judicial e extrajudicial.

 

Nossas considerações giram em torno da modalidade de mediação extrajudicial, no Brasil regida pela Lei Federal nº. 13.140/15, que consiste em um processo tecnicamente instruído, pautado em princípios rígidos, como imparcialidade do mediador, isonomia entre as partes, oralidade, informalidade, autonomia da vontade das partes, busca do consenso, confidencialidade e boa-fé, — que oferece às partes envolvidas maior celeridade na instrução, desenvolvimento e resultado dos dilemas, e que vem alcançando espaço em várias frentes de conflito, obtendo grande êxito.

 

Não obstante, não podemos olhar a mediação apenas pelo aspecto técnico, uma vez que esta ferramenta é mais subjetiva do que racional. Essa subjetividade inerente, porém, caso não trabalhada com habilidades e técnicas por parte do medidor, terá um impacto negativo na consecução dos objetivos. São estas habilidades e técnicas: instaurar nas partes a humildade, provocar nelas o desprendimento das emoções, de preconceitos, egos inflados, vergonha, introspecção… etc. Esses elementos impedem a busca de alternativas de solução que visem o máximo de bem estar para as partes e seus dependentes, ou seja, a tomada de decisão mais adequada para a solução do conflito.

 

Desenvolvendo um olhar ético, diríamos que, neste modelo, o arcabouço de decisão que terá maior importância será aquele com base na Teoria Ética do Utilitarismo: A Teoria da Felicidade de Stuart Mill. Igualmente, não só as partes precisam estar preparadas para lidar com os elementos subjetivos da mediação. Os mediadores, acima de tudo, considerando o fato de que são eles que irão desenvolver nas partes todo o potencial psicológico e emocional necessários ao atendimento dos objetivos que foram trazidos.

 

Ponderados esses vieses que, regra geral, são difíceis — tanto para as partes, que normalmente estão extremamente sensíveis e em postura defensiva, quanto, consequentemente, para os mediadores —começa a se formar um ambiente que permitirá discussões construtivas, as quais conduzirão ao elenco de possibilidades que irão proporcionar às partes o poder de decidirem juntas qual ou quais seriam as melhores alternativas para o caso em questão.

 

Em que pese às razões institucionais da lei, a mediação alcança níveis altamente satisfatórios, mais adequados e efetivos na solução de conflitos, isto porque são as partes, os protagonistas do processo, que, conduzidos pelo mediador, serão os autores da decisão. Logo, há uma reorganização dos papéis de poder. O que no modelo majoritário ficava na mão de um Juiz, agora fica nas mãos de quem de fato vivencia o conflito e operacionalizará a solução ali encontrada conjuntamente — e de maneira compartilhada.

 

Ressalta-se que esse feito só será possível se, antes de tudo, houver a permissibilidade das partes alinhada às técnicas desenvolvidas pelos mediadores, na perspectiva de um olhar diferente, sob o qual, apenas com as emoções restauradas, os elementos subjetivos cuidados e a comunicação restabelecida, será possível chegar à escolha mais inteligente no caso concreto.

 

Com esse modelo de solução de conflito, resta clara a capacidade que o indivíduo tem — tanto à frente de questões técnicas, empresariais ou familiares, quanto à frente de dilemas éticos — de desenvolver linhas alternativas de solução e de tomar suas decisões de maneira racional e com um olhar prospectivo.

 

Gizelma Lima é embaixadora da Rede Mulher em Sergipe, é contadora e especialista em auditoria governamental e contabilidade pública; é mediadora extrajudicial; palestrante nas áreas de gestão e ética empresarial e empreendedorismo feminino, é auditora, associada ao Instituto de Auditores Internos do Brasil — IAA AUDIBRA, consultora de gestão e professora na Universidade Federal de Sergipe

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